*Por Sergio Lozinsky
A definição do que carateriza um “bom” líder passa por várias subjetividades, mas é possível concordar que tal profissional deve ser capaz de conduzir sua organização rumo à eficiência e à rentabilidade, garantindo que a operação transcorra de forma cooperativa e com resultados satisfatórios. Porém, mais do que discutir as qualidades dessa liderança, é essencial entender os fatores que podem favorecer ou comprometer o exercício dela.
Abaixo, elenquei alguns pontos que considero importantes para que o líder usufrua da sua posição de modo a colher frutos tanto para a sua carreira, quanto para o seu time e os negócios. Essa lista resulta de vivências e observações que reuni ao longo da minha atuação profissional, e espero, com ela, estimular a reflexão sobre o que a liderança pode ser quando exercida com consciência.
Dentre os fatores que vejo como imprescindíveis para a liderança, a diversão é o primeiro a ser atendido. Não digo no sentido lúdico, mas sim enquanto satisfação no exercício da função. A autorrealização é um componente fundamental para a boa liderança, pois um líder legitimamente realizado tem mais condições de estimular e influenciar seus liderados.
Esse aspecto é importante também por transmitir segurança. Vivenciar essa realização faz com que o líder não seja aquele profissional que parece estar permanentemente preocupado. E esse estado resulta, ou ao menos inspira, confiança no próprio negócio.
Ter consciência dos próprios limites é o que permite medir a ousadia, bem como entender as habilidades que precisam ser trabalhadas para compensar as deficiências. Isso também abre uma via importante para a liderança: a montagem de equipes. Quanto mais consciente o líder está de suas limitações, mais condições têm de montar um time que consiga suprir aquilo que ele próprio não é capaz de dar. E isso também ajuda a atenuar a inevitável solidão que acomete a liderança, como escrevi em outro artigo recente.
Conheci um caso exemplar dessa habilidade em uma empresa familiar, onde os muitos irmãos exercem papéis executivos. Todos eles reconhecem a inabilidade em assumir a condição de porta-voz da organização, razão pela qual identificaram e contrataram um profissional competente de marketing para atuar nessa seara e também como ghost writer. Esse exemplo mostra que, mesmo se tratando de um negócio de grandes proporções, não há ali espaço para a arrogância de achar que qualquer coisa irá funcionar. E quem já experimentou lidar com uma liderança prepotente sabe o quanto essa é uma habilidade rara – e, portanto, valiosa.
Um ponto que costuma interferir frequentemente com a qualidade da liderança é o desequilíbrio no trato dos riscos, desafios e oportunidades. Claro, ser destemido ou cauteloso são características pessoais que podem se manifestar mais em um líder e menos em outro, e por si só não são problemáticas. O problema é quando qualquer um desses traços excede o bom senso e se torna preponderante.
A visão realista combate esses excessos. A pressão por resultados sempre vai existir – é um elemento inato da liderança. Mas é a postura “pé no chão”, que considera os resultados possíveis acima dos desejados, que permite que o líder continue exercendo seu papel com um bom grau de autorrealização, sem deixar de lado a entrega de resultados.
Se é tarefa do líder desenvolver pessoas, ele deve estar preparado para que elas tenham voos autônomos. Conheci um gestor que, no comando de uma consultoria, declarou o seguinte à sua equipe: “Nós vamos fazer projetos de transformação nas empresas, nosso trabalho vai surpreender o cliente e, por causa disso, alguns de vocês vão receber convites para nos deixar e se juntar a ele. Se for bom para vocês, aceitem. Isso não é problema, pois mostra que estou cumprindo o propósito de desenvolver a carreira de vocês”.
Esse desapego é necessário. Na verdade, considero o altruísmo um traço comportamental importante não só para a liderança, mas para a vida em sociedade como um todo. Ele é uma âncora para a consciência de que, se por um lado temos uma série de obrigações para fazer o negócio crescer, por outro há um mundo de pessoas entre os públicos interno e externo que também têm seus propósitos e suas ambições. E enquanto estivermos todos juntos, cabe ao líder cuidar para que as condições sejam as melhores possíveis para todos.
O orgulho diante de uma conquista ou da conclusão de um projeto demandante é natural. Mas as “vitórias” não podem se tornar uma cela fechada que impede a visão do que está acontecendo ao redor. O sucesso deve ser relativizado porque ele sempre é fruto de um trabalho coletivo e de um conjunto de fatores externos. É óbvio que o talento para orquestrar essas circunstâncias faz parte da vitória, mas provavelmente não foi a “pedra fundamental”.
Nenhum líder está imune à arrogância e, até por conta disso, convém não facilitar o terreno para que ela se torne uma constante. Não é à toa que tantas religiões e escolas filosóficas tratem a soberba como um pecado ou um desvio de caráter. Os esforços para que ela não se apodere da mente do líder devem ser constantes.
Certezas sempre foram mais danosas que a dúvida. E mesmo quando a certeza se faz necessária (como no caso de uma tomada de decisão), ela precisa estar muito bem fundamentada em argumentos e evidências demonstráveis. Sem isso, o achismo rapidamente se torna a regra e põe tudo em risco.
Portanto, desafiar-se em seus conhecimentos precisa ser uma prática na rotina do líder. O que nos leva ao último, mas não menos importante, tópico dessa reflexão:
Interessar-se pelo objeto do negócio não basta – para ser um líder, é preciso ter uma formação cultural ampla. Sei que essa qualidade não é unânime, mas realmente não vejo como um líder possa ser completo quando o seu único foco é a relação imediata com o business.
Nossa sociedade tem baixos índices de leitura, e pesquisas apontam que a capacidade de concentração e retenção de informações está cada vez mais reduzida. O líder não pode embarcar nessa nave. Ao contrário, precisa ser alguém que versa sobre diferentes assuntos, até porque, muitas vezes, ele será capaz de conectar alguns desses assuntos com o próprio negócio. História, arte, comportamento, ciências, comunicação – quanto mais abrangente o leque, melhor.
Os problemas que um líder vai enfrentar são de naturezas diversas. Logo, quanto mais vivência ele tiver fora daquele universo estreito, melhor. E quando se considera o quanto um líder está publicamente exposto hoje em dia – com artigos, redes sociais, podcasts, palestras – essa necessidade de ampliar o conhecimento se torna ainda mais intensa.
Essas são algumas sugestões, mas que certamente não esgotam o tema. Afinal, liderança é uma construção gradativa. De qualquer maneira, o aprendizado sempre flui melhor quando estamos conscientes das atitudes essenciais.