*Por Fabio Ferreira
Se há pressão pela adoção da inteligência artificial em praticamente todas as atividades comerciais, no setor financeiro não seria diferente, certo?
Não exatamente. As conversas para acelerar a adoção da IA e expandir seu uso em bancos, fintechs, financeiras e outras empresas do ramo existem, e estão focadas principalmente em automatizar operações, reduzir custos e ampliar a personalização de produtos. Porém, quanto mais sofisticada fica a inteligência artificial disponível para os clientes, maior é a demanda por transparência, controle e presença humana.
Essa não é uma constatação pessoal, apenas, mas um achado do estudo de Tendências Bancárias 2026 da Accenture, conduzido com 10 mil clientes em dez mercados, incluindo mil respondentes no Brasil, e que traça um mapa das expectativas dos consumidores em relação à adoção de IA nos serviços financeiros. A pesquisa mostra que o desafio para as lideranças de tecnologia do setor é encontrar meios de implementar sistemas de IA capazes de agir de forma autônoma e, ao mesmo tempo, garantir que os clientes ainda se sintam seguros e senhores de seus processos. Não é uma tarefa simples.
Antes de mais nada, cabe reconhecer que a inteligência artificial já está incorporada ao setor financeiro. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) divulgou uma pesquisa onde identificou que, em 2025, 88% dos bancos utilizavam IA generativa em suas operações internas, enquanto os investimentos em tecnologia atingiram R$ 42,3 bilhões. Ao longo desse mesmo ano, 7.473 postos de trabalho foram eliminados, em grande parte devido à inteligência artificial.
Essa é a realidade. Mas até que a IA esteja amplamente presente de ponta a ponta na operação do setor, há um longo caminho a percorrer. O potencial é imenso, pois essa jornada gera uma infinidade de dados – as informações vêm de cartões de crédito, cupons fiscais, transações eletrônicas, e tudo isso é cruzado com o CPF ou CNPJ do cliente, permitindo a criação de uma ampla gama de produtos personalizados com muito mais rapidez e assertividade do que o modelo ainda dominante, no qual o gerente propõe produtos e serviços a partir da análise humana.
Entretanto, há desafios significativos a serem resolvidos antes. As questões de privacidade, como seria de se imaginar, são as mais delicadas, e ainda não há uma solução que as resolva a contento. As discussões regulatórias estão acontecendo em ritmo lento, e existe uma dimensão ética que precisa ser contemplada, considerando o baixo nível de educação financeira da população brasileira.
Um problema comum na adoção de novas tecnologias é a mentalidade do “primeiro a gente implanta, depois a gente vê o que faz”. Segurança e conformidade são práticas que devem ser integradas, não adicionadas posteriormente. Criptografia em repouso e em trânsito, técnicas de privacidade diferencial e trilhas de auditoria protegem dados sensíveis do cliente, mas isso precisa estar bem definido na regulação – a qual ainda é embrionária.
Além da privacidade, um risco significativo é o enviesamento de dados. Já é consenso que modelos sem viés começam com dados sem viés, mas garantir que isso aconteça na prática não é simples: exige que os conjuntos de dados sejam diversos e bem rotulados, além de receberem revisões obrigatórias de explicabilidade. Sem isso, a inteligência artificial fatalmente vai incorrer em resultados discriminatórios na avaliação de empréstimos, seguros e de gestão de patrimônio.
Além disso, faltam profissionais capacitados para essas sutilezas. O capital humano é o verdadeiro diferencial no uso eficaz da IA. Programas de capacitação direcionados e parcerias acadêmicas poderiam reduzir a lacuna de talentos em IA, garantindo que cientistas de dados, gestores de risco e auditores falem uma linguagem comum. Essa é uma movimentação que já ocorre no setor financeiro australiano, por exemplo, e começa a aparecer em alguns países europeus, mas da qual ainda não se tem notícia aqui no Brasil.
Implementar IA exige um planejamento meticuloso, que abrange treinamento dos modelos, aprimoramento das estratégias de IA e garantia do alinhamento de ferramentas, contratadas ou proprietárias, com os sistemas e processos de negócios existentes. Essa última parte é particularmente multifacetada, pois exige aprimorar a qualidade dos dados, garantir processos transparentes e justos de tomada de decisão, e desenvolver modelos robustos.
Se queremos alcançar uma integração harmoniosa da inteligência artificial com os serviços financeiros, é preciso estabelecer diretrizes éticas, medidas de segurança de dados e um compromisso com as implicações sociais do uso dessa tecnologia. Em suma, as instituições sérias do setor precisam se preocupar com a maneira como vão processar as informações que circulam em suas operações.