O que estamos fazendo com o tempo que a IA economiza?

Reduzir o tempo dedicado às tarefas operacionais de nada serve se o tempo que sobra não é usado para gerar valor real para o negócio

*Por Sergio Lozinsky

A IA ainda precisa provar o seu valor – e, se não o fizer, terá custado caro, sem pagar as suas próprias contas. Essa problemática dá força aos argumentos de que IA “poupa tempo” e “acelera processos”. Só que aumento de produtividade não implica diretamente em valor gerado.  Em outras palavras, a pergunta “quanto tempo você economiza?” é bem diferente de “o que você faz com esse tempo?”.

Segundo um estudo do Boston Consulting Group de 2026, 66% dos profissionais de linha de frente (e 61% do total de respondentes) afirmam que suas organizações oferecem orientação limitada ou nenhuma orientação sobre o que fazer com o “tempo liberado pela IA”. Esse índice é de 52% entre líderes, o que aponta para uma brecha de percepção ao longo da hierarquia: quanto mais alto o cargo, mais a pessoa acredita que a orientação é clara; quanto mais baixo, mais sente a ausência de direção. 

Em outras palavras, mais da metade dos profissionais de linha de frente não reinveste o tempo economizado em trabalho de maior valor estratégico. Vale dizer que a pesquisa em questão, apropriadamente intitulada Strategy Matters More Than Tools (“a estratégia vale mais que as ferramentas”), ouviu 11.749 profissionais em 14 mercados globais – incluindo Brasil, Estados Unidos, Índia, Reino Unido, Alemanha, França, Japão, Austrália, África do Sul e Oriente Médio. Não se trata de um universo de pesquisa pequeno – e é ainda mais relevante quando entendemos que foram ouvidos profissionais de linha de frente sem responsabilidades gerenciais, gestores de médio escalão e líderes seniores.

Para esse grupo bastante representativo dos escalões de grandes empresas, a percepção é clara: os projetos de inteligência artificial não dão resultados que fazem a diferença. Os ganhos não se convertem em melhorias. Por que, então, as empresas não abandonam o barco? 

Deslumbramento e desconhecimento

Existe uma mistura de razões para as empresas ainda não saberem exatamente o que fazer com o tempo que a inteligência artificial está liberando. Uma delas é o fato de ser um tema muito novo, que ainda passa por um processo natural de amadurecimento. Mas talvez o principal problema seja o foco excessivo em custos. 

Evidentemente, a premissa tem seu apelo: toda gestão busca meios de fazer o mesmo trabalho com menos pessoas, e se isso acontecer errando menos ou executando as tarefas mais rapidamente, tanto melhor. O problema é abraçar essa premissa sem entender como ela será executada ou, mais grave, sem ter uma visão do que essa mudança representa para o modelo de negócio e para a forma como a empresa trabalha.

Se qualquer ferramenta – o raciocínio vale para todas, não apenas para a IA – é aplicada de forma a mudar a realidade de uma organização, é preciso questionar o que essas mudanças significam para o negócio. Não dá para acatá-la apenas porque “todos estão fazendo” – embora, historicamente, não faltem exemplos de condutas desse tipo no mundo corporativo.

Existe, ainda, um terceiro fator: a IA é a inovação mais influente no ambiente de trabalho na visão dos CEOs globais. Mais de 36% das lideranças organizacionais classificaram a IA em primeiro lugar entre as inovações dos últimos 300 anos, à frente dos notebooks e tablets (35%), vídeo chamadas e videoconferências (31%), Wi-Fi (29%), internet (27%) e trabalho híbrido (26%), de acordo com pesquisa do International Workplace Group (IWG). 

Que a IA seja percebida como mais influente que a própria internet parece um exagero – a rede mundial é a criação que possibilitou que todas as outras inovações elencadas acima pudessem ser adotadas em escala global. Ainda assim, essa percepção mostra a força com que a inteligência artificial se instalou no inconsciente coletivo.

Erro essencial

Há algo nos dados dessa pesquisa que me chama a atenção: quando um executivo ou profissional em posição estratégica diz que consegue reduzir em 60% seu tempo usando IA, isso significa que essa pessoa estava executando um trabalho predominantemente operacional e pouco estratégico.

O tempo de um diretor ou presidente deveria estar dedicado à gestão, à reflexão, ao relacionamento com clientes, ao estudo de novas ideias e possibilidades e à expansão do negócio. Se ele passa a maior parte do tempo realizando um trabalho repetitivo, ou uma análise que poderia ser feita por alguém hierarquicamente inferior e com custo menor, existe alguma coisa errada no modelo.

Tempo é um ativo

A discussão sobre o que fazer com o tempo que a IA libera precisa ser feita de cima para baixo. Essa revisão vai começar a separar um pouco o joio do trigo entre os executivos: quem apenas administra o dia a dia e quem está pensando em mover o negócio adiante.

É claro que, quando sobra tempo, algumas pessoas podem simplesmente aproveitá-lo para o lazer. É uma opção legítima: trabalhar menos e fazer a mesma coisa. Mas, para uma organização, existe uma oportunidade muito maior de ampliar sua atuação e explorar campos que antes pareciam inacessíveis.

Outro questionamento importante que deveria ser feito por todos da organização, especialmente por quem está em posições mais operacionais, é: “que tipo de profissional eu posso ser agora que tenho essa ferramenta?”. Isso não significa necessariamente deixar a companhia, empreender ou criar uma startup. Pode significar simplesmente encontrar uma maneira de ser melhor onde você já está, tornar-se mais visível e agregar mais valor ao negócio.

Pessoalmente, entendo que o tempo liberado pela inteligência artificial deva ser usado para expandir a atuação profissional, em nível individual, e desafiar o próprio modelo de negócio, este no âmbito corporativo. Vale dizer que essa postura pode até mesmo resultar na contratação de mais pessoas. Afinal, se a empresa identifica uma oportunidade de crescimento, pode precisar redirecionar profissionais para determinadas atividades. O objetivo não deve ser simplesmente reduzir o número de pessoas, e sim entregar com maior excelência o valor que a organização promete.

Vale a pena relembrar: a internet só passou a entregar valor para as organizações quando elas mudaram sua forma de trabalhar e abraçaram a nova realidade, explorando suas possibilidades. Já fizemos isso uma vez, e nem faz tanto tempo assim. Podemos fazer novamente, desde que deixemos de tratar o assunto de forma superficial.

artigo assinado por
compartilhe este artigo
Redes sociais Lozinsky Redes sociais Lozinsky

Qual o seu problema
de negócio complexo?

Conheça os desafios que motivam a transformação do seu negócio. E saiba como resolve-los,
nossos cases
Outros artigos
Estratégia e gestão de TI

O que estamos fazendo com o tempo que a IA economiza?

Reduzir o tempo dedicado às tarefas operacionais de nada serve se o tempo que sobra não é usado p...

Leia o artigo
Carreira e Jornada CIO

As empresas estão desistindo de parecer boas para trabalhar?

Existe uma espécie de orgulho em gerenciar por pressão se formando em algumas empresas, e isso é ...

Leia o artigo
Transformação de Negócios

A próxima grande crise de segurança será uma crise de identidade

Em meio a um potencial quase infinito para o uso da ferramenta da vez, há questões práticas e éti...

Leia o artigo
mais artigos
© 2025 Lozinsky Consultoria — Todos os direitos reservados. — Política de Privacidade