Da governança de TI à governança digital: o que muda

Diante de modelos que já não comportam os desafios atuais, a governança precisa ser repensada para voltar a ser uma ferramenta de crescimento

*Por Fabio Ferreira

O ambiente tecnológico mudou profundamente, e a governança de TI focada apenas em operações e orientada somente a projetos e infraestrutura já não é mais suficiente para dar conta dos desafios. A governança também precisa se digitalizar.

A governança digital contempla práticas de transparência, participação e informação que caracterizam qualquer governança, conforme definição da própria Organização das Nações Unidas (ONU), mas considera também o caráter fluido e dinâmico que as operações corporativas passaram a ter a partir da digitalização. É um modelo abrangente, integrado por uma série de aspectos, entre eles governança de dados e o impacto das políticas na cultura organizacional, e nasce como uma resposta às necessidades atuais, visando o uso mais inteligente e eficiente do capital tecnológico da empresa

A principal diferença entre a governança tradicional e a digital está na capacidade desta última de conferir agilidade e simultaneidade aos processos. Isso porque, no modelo antigo, cada demanda é recebida, analisada e executada de forma estratificada, enquanto na governança digital tudo acontece de forma mais fluida. 

Na governança tradicional, cada vez que essa empresa precisar ir ao mercado em busca de um fornecedor, por exemplo, isso exigirá um processo exaustivo: apresentar o contexto corporativo, explicar como a aplicação deve funcionar, o que ela precisa entregar e como interagir com outros sistemas e aplicações. A partir daí, um bom fornecedor levará de 15 e 20 dias para apresentar um orçamento que, possivelmente, não caberá na realidade da empresa, demandando negociações (e mais morosidade).

Já em um modelo de governança digital, é bastante provável que a aplicação tenha condições de ser desenvolvida dentro de casa – algo cada vez mais facilitado pela inteligência artificial. Graças a ela, a empresa pode codificar essa aplicação se valendo de algumas técnicas simples – estabelecendo prompts, por exemplo – e com um ganho de tempo notável em comparação ao processo descrito no parágrafo anterior. Mas como garantir que tudo isso funcione de forma segura, eficiente e confiável? 

É aí que entra a governança digital. Ela deve proporcionar aos usuários a possibilidade de criar contextos para que as melhores tecnologias e ferramentas sejam escolhidas e, sob a batuta da TI, utilizadas de modo a fazer o dia a dia do usuário fluir mais eficientemente. Ou seja, ela se torna a ferramenta que vai conferir maior autonomia aos times, para que mais agentes dentro da organização possam contribuir para o uso positivo da tecnologia, ao mesmo tempo garantindo que essa liberdade não resulte em riscos de segurança.

Continuidade e simultaneidade

Nesse novo modelo, segurança, anonimização e privacidade de dados continuam sendo essenciais, mas são tratadas sob uma estrutura operacional capaz de conferir uma agilidade real aos processos. E, com essa autonomia ampliada, é possível responder a várias demandas ao mesmo tempo com maior grau de eficiência.

Outra grande diferença do modelo digital é uma considerável desburocratização. Não que burocracia seja o oposto de governança, mas aqui cria-se o terreno propício para que as atividades da TI não fiquem engessadas sob regras ineficientes. Claro, documentação sempre será necessária – a gestão do conhecimento jamais pode ser negligenciada – mas os elos entre a TI e as áreas de negócio ficam mais próximos e com menos entraves.

Que fique claro: esse novo formato de governança é um trabalho em desenvolvimento nas organizações. Isso porque a governança digital exige uma mudança de mentalidade não apenas da TI como também das áreas clientes, e isso não acontece do dia para a noite. É preciso aculturar e capacitar os times para atuarem dentro dessa nova proposta. 

Uma vez estabelecido esse modelo, as ações ainda precisam ser orquestradas pela TI para que ocorram no tempo certo, e dentro dos recursos que a empresa dispõe no momento. A governança digital não pressupõe carta branca para as equipes agirem como bem entenderem. Elas vão operar sob as orientações da liderança tecnológica, que precisa estar fortalecida para implantar com êxito esse modelo, e quanto menor a maturidade digital, mais difícil e prolongada será essa transição. Mas ela é inevitável. 

As organizações precisam se tornar menos dependentes de técnicos e mais confiantes na autogestão dos usuários se quiserem aproveitar todo o potencial tecnológico que está emergindo.

Se com o modelo atual já vemos a shadow IT prosperar e recursos caros sendo subutilizados, isso se tornará muito mais disseminado caso se implante a governança digital em uma empresa onde a maioria dos usuários está despreparada. Portanto, a TI precisa ser a primeira a se estruturar, estudando e explorando as possibilidades das novas tecnologias e multiplicando o seu potencial ao capacitar as áreas de negócio para usá-las plenamente.

artigo assinado por

Fabio Ferreira

CTO e sócio-consultor
Expert em infraestrutura tecnológica e sistemas. Tem 20 anos de experiência na indústria de tecnologia da informação e de serviços.
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