*Por Ricardo Stucchi
Mais do que “separar o joio do trigo”, a reflexão do título deste artigo nos estimula a entender qual foi o legado das mais recentes mudanças empreendidas na organização, e quais focos de investimentos têm maior potencial de prosperar daqui para frente. O que foi efetivamente transformado – e o que não passou de expectativa exagerada?
Em 2025, diversos temas se acumularam na pauta da gestão de TI, mas será sobre três deles – os que acredito terem sido os mais relevantes no período – que vamos nos concentrar aqui.
Em 2025, todo executivo de tecnologia foi pressionado a responder perguntas sobre a inteligência artificial. Nas empresas mais dispostas a se posicionar ou a investir nisso, a IA tomou a forma de projetos; nas demais, as ideias não saíram do papel.
O tema foi inescapável, certamente, e assim será em 2026. A principal questão, no entanto, é: o fervor da IA não passou de calor, ou houve mesmo uma transformação nas empresas e nos processos?
Por mais que um grande número de analistas e articulistas digam que a IA é “uma bolha”, o cenário está longe de desmoronar. E há um motivo para isso: projetos que foram bem estruturados e tiveram apoio interno renderam, no mínimo, bons testes. Os resultados na aplicação de novas tecnologias raramente são imediatos – existe uma curva de adoção da tecnologia, e são nos altos e baixos dessa curva que a oferta se estreita e as melhores soluções permanecem.
No ponto em que estamos nessa curva, ainda não vimos a transição para uma arquitetura majoritariamente apoiada na IA. Ainda assim, é seguro dizer que as empresas mais cuidadosas, que realizaram iniciativas sem gerar expectativas de mudanças radicais, tiveram boas experiências. Já aquelas que adotaram a premissa de que a IA generativa possibilitaria uma grande redução de efetivo e uma velocidade exponencialmente maior nos processos… essas organizações gastaram muito dinheiro para descobrir que o Eldorado não existe, e que a tecnologia ainda não estava pronta para entregar o que os desenvolvedores anunciaram.
Por isso, acredito que 2026 será um ano de ações ainda mais estruturadas, que vão conciliar o uso de aplicações existentes com soluções de inteligência artificial. Ou seja, no lugar da adoção da IA generativa a qualquer custo, a escolha estratégica de aplicá-la onde mais faz sentido e trará valor ao negócio.
Quando um grande banco demitiu mais de mil funcionários alegando baixa performance no teletrabalho, o mercado prestou atenção. A decisão ter sido tomada por uma instituição conceituada assinalou a escalada de um movimento já notado: o trabalho presencial está voltando a se tornar a regra.
A verdade é que, no período 2020-2021, ninguém estava em home office, e sim em lockdown. A diferença é grande: o primeiro é uma escolha ou uma premissa, enquanto o segundo é uma situação de exceção, necessária para enfrentar a pandemia da Covid-19. Quando as restrições sanitárias foram flexibilizadas, aí sim começamos a viver um home office “de fato”, no qual pequenas janelas de tempo poderiam ser utilizadas para outras atividades que não fossem profissionais. No entanto, o trabalho, presencial ou remoto, sempre é trabalho, no sentido de que existem compromissos e responsabilidades a serem honradas.
Um entendimento comum entre as organizações é que as gerações mais jovens, em início de carreira, ficaram carentes de um aculturamento para a vida profissional. Afinal, ninguém aprende a trabalhar sozinho ou só na faculdade: o exemplo, o convívio e a mentoria, que são muito mais naturais no modelo presencial, são grandes professores e nos ensinam a navegar pelas nuances de uma organização.
Em paralelo, profissionais de algumas áreas específicas, como tecnologia e conteúdo, passaram a atuar como freelancers concomitantemente aos seus empregos regulares, e isso pode ter comprometido, em muitos casos, a qualidade das entregas e das relações de trabalho.
Com isso tudo, é natural que as empresas tenham voltado a priorizar o modelo presencial. É saudável debater se determinados cargos permitem maior flexibilidade, ou se há vantagens do modelo híbrido que podem ser mantidas (leia também “O que o CIO ganha – e o que ele perde – com o home office“). Porém, está mais do que claro que, em 2026, veremos as equipes novamente de volta aos escritórios.
Para 29% dos entrevistados para a quarta edição da Jornada CIO, estudo exclusivo da Lozinsky Consultoria sobre o perfil do líder de TI, o papel do CIO é estratégico, mas atravessa um ponto de virada. Ou seja, quase um terço dos executivos avaliam que o momento é de potencial crescimento mas, ao mesmo tempo, de ameaças à carreira. Essa percepção tem fundamento: a lista de necessidades tecnológicas que qualquer negócio demanda é praticamente infindável. Há pressões por eficiência, segurança, integridade, redução de custos, entre outros.
O líder de TI que acredita que conseguirá resolver tudo isso e ainda agradar politicamente a todos os setores da empresa não só falhará nesse intento, como está fadado a ser substituído. A ambição não pode ser maior que a entrega.
O CIO que continuará em sua cadeira pelos próximos anos é aquele que sabe se comunicar com a diretoria e explica a situação real da TI da empresa de forma inequívoca e pragmática, conseguindo sensibilizar seus interlocutores no processo.
E mais do que isso, apresenta um plano com foco claro no que precisa ser feito, sem fechar o espaço para experimentações que possam provocar transformação.
Em 2025, a pressão para que o uso da tecnologia se convertesse em ganho real para a organização foi intensa, até mesmo descomedida, especialmente para proporcionar redução – primordialmente de custos, mas também de prazos. Ou seja: foi o ano em que a eficiência operacional deu o tom das pautas – como se viu nos dois temas anteriormente abordados aqui.
As necessidades criadas pela pandemia e a corrida pela inovação que marcou a primeira metade desta década criaram gargalos, legados inoperantes e maus hábitos – de gestão e de operação. Essa demanda por eficiência é um esforço consciente de tentar enxugar as ações do passado recente que não foram totalmente equalizadas, ou que amadureceram e precisam ser revistas.
Mas esse histórico também trouxe aprendizados importantes. Por isso, se 2025 foi o ano de podar os excessos cometidos no passado, 2026 será (não apenas, mas principalmente) o ano de reequilibrar a balança entre inovação e eficiência.