*Por Ricardo Stucchi
O discurso você conhece: eficiência a todo custo.
Ou melhor, eficiência ao menor custo.
Depois de anos navegando sob a bandeira da inovação, a TI passou a adotar como norte a eficiência. Mesmo a corrida pela inteligência artificial, até aqui, buscou predominantemente operações mais enxutas e produtivas, ainda que essa tecnologia tenha o potencial de impulsionar grandes mudanças nas organizações.
Se a prioridade de gestão se deslocou da inovação para o ganho de eficiência, quando foi que isso aconteceu? E, mais importante, o que traz como consequências práticas?
Primeira constatação: tudo mudou a partir da pandemia da Covid-19, com impactos que até hoje não conseguimos mensurar inteiramente na economia, na educação, no meio ambiente, na sociedade e até em nosso universo individual. Mas ela não foi o único evento de repercussão mundial. Em termos bélicos, a invasão da Ucrânia pela Rússia provocou desdobramentos no mundo todo, afetando a cadeia logística e de abastecimento de diversos produtos, com a inflação global afetando drasticamente o preço dos alimentos, por exemplo.
Após um breve aquecimento econômico causado pelo fim das restrições sanitárias, começamos a sentir o impacto do custo mais elevado da cadeia logística, das restrições causadas pela instabilidade política e econômica na Europa e dos conflitos no Oriente Médio, que se intensificaram gravemente em 2026. Localmente, continuamos lidando com juros e carga tributária elevados. Em resumo: não houve como sustentar a euforia pós-pandêmica.
Sem perspectiva de ver a macroeconomia estabilizada, as empresas começaram a cortar “na carne”. E, obviamente, ainda tinham que mostrar resultado. Eficiência, então, deixou de ser uma palavra desgastada e sem significado concreto para virar o Santo Graal das operações corporativas.
Evidentemente, o problema não estava apenas “lá fora”. Havia muita coisa mal resolvida dentro das próprias organizações, entre elas questões que provavelmente não foram tratadas de maneira adequada no processo da transformação de negócios. Milhões foram investidos na busca por digitalização e automação, mas, em alguns casos, não foi investimento, e sim desperdício.
Não foram poucas as empresas que entraram na corrida tecnológica sem saber exatamente o que procuravam obter dela. O resultado disso? Sistemas mal integrados, investimentos alocados em áreas que não eram prioridade, manutenção do “sistema antigo” porque ninguém foi devidamente aculturado e capacitado para adotar o novo, entre outros problemas.
O discurso da transformação rezava que o mundo está mais dinâmico que nunca, e que era preciso transformar os negócios para prosperar nessa nova realidade. Porém, como falei em um artigo anterior, algumas sequer executaram o básico bem-feito.
Ao priorizar a tendência do momento em vez de garantir o básico bem-feito, as empresas criaram para si diversas deficiências operacionais. Isso, claro, teve seu preço. Agora, ele precisa ser pago, e a crença é que a moeda que vai saldar essa dívida é a tal eficiência.
A tônica atual é fazer mais com os recursos que estão à mão – ou usar a bola da vez, que é a IA, para fazer mais com “menos”. Ou ambos.
Percebo esse momento de foco em eficiência também no mundo das startups. Claro que ainda existem muitas empresas buscando novos modelos de negócios e que irão revolucionar o mercado, mas cada vez mais vejo iniciativas de soluções voltadas a oferecer eficiência ao mercado corporativo, em temas que até pouco tempo atrás pareciam pequenos, mas se revelaram importantes – gestão de benefícios, de reembolsos, de horas trabalhadas e vários outros aspectos da rotina corporativa, por exemplo.
Obviamente, não há mal algum nessa premissa. A questão é que ela não pode repetir o erro da inovação: assim como não se podia inovar a qualquer custo, tampouco é o caso de ser eficiente a qualquer custo – por mais reduzido que ele seja. Afinal, eficiência tem seu preço – e não apenas monetário. Exige treinamento, inteligência de mercado, gestão de pessoas, profissionais seniores, infraestrutura, arquitetura inteligente, entre outros recursos. As empresas precisam estar conscientes de que precisarão investir dinheiro, tempo e esforço se quiserem mesmo ser mais eficientes.
No fim, as organizações não precisam escolher entre inovação ou eficiência – elas podem ter ambos, desde que não sigam arrastando os vícios que elas próprias criaram para si.